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O que significa “risco” na infância?
04 Janeiro 2026

O que significa “risco” na infância?

O que significa “risco” na infância?

Na infância, tudo é uma descoberta. Subir a um tronco caído, saltar nas poças de lama, correr e andar de bicicleta em terrenos mais acidentados… podem parecer coisas arriscadas aos olhos dos adultos, mas, para as crianças, são momentos ricos de aprendizagem, confiança e liberdade.
Na Escola Lá Fora, acreditamos que o contacto com o risco é essencial para o crescimento saudável e para o desenvolvimento de competências que vão acompanhar as crianças para toda a vida.

 

O que significa “risco” na infância?

Quando falamos em risco, não falamos em perigo. Perigo é uma situação em que a criança pode magoar-se de forma séria, sem ter consciência disso nem meios para se proteger. Risco é a possibilidade de desafio e de erro. Algo que pode ser tentado, explorado e aprendido.

Para uma criança, subir a uma árvore pode ser arriscado, mas não é perigoso se o ambiente for acompanhado por regras de segurança, por adultos atentos e se a criança tiver confiança na sua capacidade. É neste espaço entre o desconhecido e o que ainda está por descobrir e conseguir que nasce o crescimento de uma criança cada vez mais capaz.

 

Os benefícios de contactar com o risco

Sempre que uma criança arrisca a experimentar algo novo, está a construir competências importantes:

  • Autoconfiança: percebe que consegue fazer mais do que aquilo que imaginava;
  • Resolução de problemas: encontra estratégias para ultrapassar obstáculos e atingir os seus objetivos;
  • Motricidade: ao arriscar, a criança desenvolve a sua motricidade de forma mais efetiva, explorando novas possibilidades do corpo;
  • Autonomia e responsabilidade: avalia o que consegue ou não fazer e aprende a tomar decisões mais conscientes;
  • Resiliência: lida com a frustração quando algo não corre bem e tenta outra vez.

 

Vários estudos internacionais reforçam a importância do contacto com o risco na infância, e, embora em menor número, já existem também estudos em Portugal que confirmam estes benefícios. Podem consultar algumas referências no final do artigo.

 

O risco na Escola Lá Fora

Na Escola Lá Fora, o contacto com o risco é parte integrante da nossa filosofia.
Ao contrário de uma sala tradicional, onde o espaço é controlado e pensado ao detalhe, na floresta há mudanças todos os dias: um tronco molhado, um ramo no chão, a lama depois da chuva. É neste contexto de aprendizagem ao ar livre que o risco se manifesta de forma natural e onde surgem várias possibilidades ricas de exploração.

Estes são alguns exemplos do nosso dia a dia:

  • As crianças aprendem a usar ferramentas reais, sempre com supervisão dos adultos e respeito pelas regras de segurança;
  • Participam em atividades como fogueiras para cozinhar, explorando o fogo como um elemento útil, de transformação e que requer cuidados;
  • Trepam árvores, ultrapassam obstáculos e exploram o terreno irregular da floresta, ganhando mais consciência do corpo e do ambiente.

Para nós, cada risco é uma oportunidade de aprendizagem. Não protegemos as crianças de tudo, ajudando-as, no entanto, a construir ferramentas internas para se protegerem a si próprias.

 

Competências para o futuro

Vivemos num mundo em constante mudança e não sabemos o futuro. As profissões que existirão daqui a 20 anos talvez ainda nem tenham nome. Mas sabemos que as competências mais importantes continuarão a ser universais: autonomia, criatividade, coragem, resiliência, empatia, pensamento crítico.
Uma criança que aprendeu a equilibrar-se num tronco escorregadio, a ser cada vez mais autónoma a usar uma ferramenta ou a gerir o receio de subir mais alto numa árvore, torna-se numa pessoa cada vez mais confiante e capaz de enfrentar desafios cada vez mais complexos e imprevisíveis.

 

Confiar nas crianças e na natureza

Para muitas famílias, confiar que os filhos podem enfrentar riscos é um passo difícil. Mas o que descobrimos todos os dias na floresta é simples. Quando oferecemos liberdade com responsabilidade, as crianças ganham cada vez mais noção das suas capacidades e dos seus limites.

O risco não é inimigo da infância. Pelo contrário, é um dos seus maiores aliados.
Permitir que as crianças brinquem na natureza, que experimentem os limites do seu corpo e da imaginação, é proporcionar-lhes uma base sólida para o futuro.

A floresta ensina resiliência, ensina calma e ensina coragem. E, no meio das árvores, aprendemos todos, adultos e crianças, que crescer é, também, arriscar.

 

Estudos relevantes

  1. Dabaja, Z. F. (2021). The Forest School impact on children: reviewing two decades of research. Education 3-1350(5), 640-653.
  2. Sella, E., Bolognesi, M., Bergamini, E., Mason, L., & Pazzaglia, F. (2023). Psychological Benefits of Attending Forest School for Preschool Children: a Systematic Review. Educational Psychology Review35(1). 
  3. Prins, J. C., Wittenberg, R., Schölmerich, V. L. N., van Keulen, H. M., & van der Veer, R. (2022). Nature play in early childhood education: A systematic review. Early Child Development and Care, 192(14), 2273–2292.
  4. Sandseter, E. B. H., & Sando, O. J. (2021). “We don’t allow children to climb trees”: How a focus on safety affects Norwegian children’s risky play in early childhood education and care. Child Indicators Research, 14(2), 861–880. 
  5. Brussoni, M., Gibbons, R., Gray, C., Ishikawa, T., Hansen Sandseter, E. B., Bienenstock, A., ... & Tremblay, M. S. (2015). What is the relationship between risky outdoor play and health in children? A systematic review. International Journal of Environmental Research and Public Health, 12(6), 6423–6454
  6. Friães, R., Reis, J. & Rocha, C. (2024). Crescer com o risco: Comportamentos das crianças e de supervisão do adulto em situações de brincadeiras arriscadas, em contexto de Jardim de Infância. Investigar em Educação, (11), 70–89. 

 

Sofia Rocha, Coordenadora da Escola Lá Fora de Almada 

 

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