Na infância, tudo é uma descoberta. Subir a um tronco caído, saltar nas poças de lama, correr e andar de bicicleta em terrenos mais acidentados… podem parecer coisas arriscadas aos olhos dos adultos, mas, para as crianças, são momentos ricos de aprendizagem, confiança e liberdade.
Na Escola Lá Fora, acreditamos que o contacto com o risco é essencial para o crescimento saudável e para o desenvolvimento de competências que vão acompanhar as crianças para toda a vida.
O que significa “risco” na infância?
Quando falamos em risco, não falamos em perigo. Perigo é uma situação em que a criança pode magoar-se de forma séria, sem ter consciência disso nem meios para se proteger. Risco é a possibilidade de desafio e de erro. Algo que pode ser tentado, explorado e aprendido.
Para uma criança, subir a uma árvore pode ser arriscado, mas não é perigoso se o ambiente for acompanhado por regras de segurança, por adultos atentos e se a criança tiver confiança na sua capacidade. É neste espaço entre o desconhecido e o que ainda está por descobrir e conseguir que nasce o crescimento de uma criança cada vez mais capaz.
Os benefícios de contactar com o risco
Sempre que uma criança arrisca a experimentar algo novo, está a construir competências importantes:
Vários estudos internacionais reforçam a importância do contacto com o risco na infância, e, embora em menor número, já existem também estudos em Portugal que confirmam estes benefícios. Podem consultar algumas referências no final do artigo.
O risco na Escola Lá Fora
Na Escola Lá Fora, o contacto com o risco é parte integrante da nossa filosofia.
Ao contrário de uma sala tradicional, onde o espaço é controlado e pensado ao detalhe, na floresta há mudanças todos os dias: um tronco molhado, um ramo no chão, a lama depois da chuva. É neste contexto de aprendizagem ao ar livre que o risco se manifesta de forma natural e onde surgem várias possibilidades ricas de exploração.
Estes são alguns exemplos do nosso dia a dia:
Para nós, cada risco é uma oportunidade de aprendizagem. Não protegemos as crianças de tudo, ajudando-as, no entanto, a construir ferramentas internas para se protegerem a si próprias.
Competências para o futuro
Vivemos num mundo em constante mudança e não sabemos o futuro. As profissões que existirão daqui a 20 anos talvez ainda nem tenham nome. Mas sabemos que as competências mais importantes continuarão a ser universais: autonomia, criatividade, coragem, resiliência, empatia, pensamento crítico.
Uma criança que aprendeu a equilibrar-se num tronco escorregadio, a ser cada vez mais autónoma a usar uma ferramenta ou a gerir o receio de subir mais alto numa árvore, torna-se numa pessoa cada vez mais confiante e capaz de enfrentar desafios cada vez mais complexos e imprevisíveis.
Confiar nas crianças e na natureza
Para muitas famílias, confiar que os filhos podem enfrentar riscos é um passo difícil. Mas o que descobrimos todos os dias na floresta é simples. Quando oferecemos liberdade com responsabilidade, as crianças ganham cada vez mais noção das suas capacidades e dos seus limites.
O risco não é inimigo da infância. Pelo contrário, é um dos seus maiores aliados.
Permitir que as crianças brinquem na natureza, que experimentem os limites do seu corpo e da imaginação, é proporcionar-lhes uma base sólida para o futuro.
A floresta ensina resiliência, ensina calma e ensina coragem. E, no meio das árvores, aprendemos todos, adultos e crianças, que crescer é, também, arriscar.
Estudos relevantes
Sofia Rocha, Coordenadora da Escola Lá Fora de Almada