O melhor modo de preparar uma criança para aprender não passa por antecipar o que virá depois, mas por fortalecer o que está a crescer agora: o cérebro, a curiosidade e a confiança.
A verdadeira preparação não consiste em ensinar precocemente conteúdos estruturados, mas em criar experiências ricas, livres, exploratórias, garantindo que a criança desenvolva o pensamento, a linguagem, a autonomia, a curiosidade e a autorregulação.
O enquadramento legal e pedagógico em Portugal
As Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (Despacho n.º 9180/2016) definem o pré-escolar como um espaço de experiências planeadas e não planeadas, interações significativas e atividades que promovem o bem-estar, o desenvolvimento e a aprendizagem (DGE, 2016).
Alguns dos seus princípios fundamentais são:
respeito pelo ritmo individual da criança;
ambiente educativo inclusivo e adaptado ao contexto social;
aprendizagem integrada e globalizante;
forte ligação com as famílias;
transição suave para a escolaridade obrigatória.
Estes princípios mostram que o pré-escolar não deve antecipar aprendizagens formais, mas sim preparar através do desenvolvimento global.
Brincar é aprender
Quando as crianças brincam livremente, exploram, testam hipóteses, resolvem conflitos e criam narrativas. Essa liberdade desenvolve múltiplas competências (Lopes & Neto, 2014):
linguagem oral — ao contar histórias e negociar regras;
pensamento simbólico e resolução de problemas;
autorregulação emocional e social;
motricidade grossa e fina.
Brincar é, portanto, um ato de aprendizagem profunda.
O risco de forçar aprendizagens
Tentar que as crianças aprendam a ler ou a escrever antes de estarem motivadas ou neurologicamente preparadas pode gerar ansiedade, crenças de incapacidade e desinteresse.
A investigação mostra que a leitura forçada antes do tempo não traz benefícios duradouros, mas pode provocar impacto psicológico negativo (Luby et al., 2016).
O contacto com a natureza
A investigação portuguesa evidencia que o contacto com a natureza favorece o bem-estar, a autonomia, a criatividade e as competências sociais e emocionais.
A brincadeira ao ar livre promove autonomia e liberdade, permitindo às crianças explorar e manipular elementos naturais (Baldock, citado por Figueiredo, 2015).
Além disso, o aumento da atividade física melhora a saúde mental, reduz o stress e potencia a autoestima (Neto & Lopes, 2018).
O movimento também é essencial para o desenvolvimento cognitivo — é através da ação e da exploração que a criança compreende o mundo e o seu corpo no espaço (Bento, 2015).
Brincar livremente na natureza fortalece a resiliência e a gestão da ansiedade (Ginsbeurg, citado por Olsen & Smith, 2017).
Aprender através de projetos
A metodologia de trabalho por projeto permite que as aprendizagens nasçam de temas que interessam às próprias crianças. Elas participam, investigam, formulam perguntas, experimentam e refletem (Vasconcelos et al., 2011).
Esta abordagem fortalece:
a curiosidade natural;
a capacidade de perguntar e procurar respostas;
a autonomia e responsabilidade no aprender;
a articulação entre áreas de conhecimento — científica, artística, motora, emocional.
Respeitar ritmos e valorizar a inclusão
Cada criança tem um ritmo próprio de desenvolvimento — social, cognitivo, linguístico.
Forçar formalidades demasiado cedo pode ser problemático e injusto, especialmente se as expectativas forem homogéneas e pouco ajustadas (Luby et al., 2016).
Metodologias participativas e democráticas valorizam esse respeito, garantindo que todas as crianças aprendam num ambiente de confiança e segurança emocional.
O que diz a neurociência
O cérebro infantil tem uma plasticidade enorme nos primeiros anos: é moldado pelas experiências, pelas relações e pelo brincar.
Existem períodos chamados “janelas sensíveis”, em que certas aprendizagens são mais férteis — como linguagem, controlo emocional e coordenação motora (Lent, 2020).
Um estudo longitudinal (Luby et al., 2016) mostrou que o apoio afetivo durante o pré-escolar está ligado ao crescimento saudável do hipocampo, área associada à regulação emocional.
Quando se força leitura ou escrita sem que as bases da linguagem oral, motricidade fina e consciência fonológica estejam sólidas, pode surgir frustração e desmotivação.
A pressão académica precoce tem sido associada a:
stress e ansiedade;
perda de prazer em aprender;
baixa autoestima;
problemas de autorregulação emocional.
Preparar sim, Formalizar não
Preparar para o 1.º Ciclo do Ensino Básico não significa antecipar o currículo, mas sim garantir que a criança entra nele emocionalmente, socialmente e cognitivamente pronta.
Algumas práticas que promovem essa preparação real:
Ambientes ricos com materiais naturais e objetos não estruturados;
Brincadeira e exploração livre no dia a dia;
Projetos que nascem dos interesses das crianças;
Observação e diálogo com as famílias para adaptar propostas;
Foco no bem-estar, na autoestima e nas relações.
As competências formais (ler, escrever, contar) virão naturalmente mais tarde, apoiadas num alicerce sólido.
Liberdade, brincar, natureza, projetos, ritmos individuais — tudo isto não é só lazer, é preparação profunda.
Preparar sem formalizar é um ato de sabedoria educativa.
Forçar aprendizagens formais demasiado cedo pode trazer danos silenciosos, mas reais.
Quando seguimos as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, metodologias como Forest School e pedagogias democráticas, criamos espaços onde as crianças aprendem com alegria, curiosidade e autonomia — e assim, realmente, preparam-se para o 1.º Ciclo do Ensino Básico e para a vida.
Referências bibliográficas
Figueiredo, A. M. (2015). Interação criança-espaço exterior em jardim de infância (Tese de Doutoramento, Universidade de Aveiro).
Lent, R. (2020). Brain development and its derangements. IBE-UNESCO Science of Learning Portal.
Lopes, F., & Neto, C. (2014). A criança e a cidade: A importância da (re)conciliação com a autonomia. In R. Cordovil & J. Barreiros (Eds.), Desenvolvimento Motor na Infância (265-292). Lisboa: Faculdade de Motricidade Humana.
Lopes da Silva, I., Marques, L., Mata, L., & Rosa, M. (2016). Orientações curriculares para a educação pré-escolar. Editorial Ministério da Educação e Ciência.
Luby, J. L. et al. (2016). Preschool is a sensitive period for the influence of maternal support on the trajectory of hippocampal development.PNAS, 113(20), 5742–5747. DOI: 10.1073/pnas.1601443113
Neto, C., & Lopes, F. (2018). Brincar em todo o lado. Lisboa: APEI.
Olsen, H., & Smith, B. (2017). Sandboxes, loose parts, and playground equipment.Early Child Development and Care, 187(5–6), 1055–1068. DOI: 10.1080/03004430.2017.1282928
Vasconcelos, T. (coord.) et al. (2011). Trabalho por projetos na educação de infância. Lisboa: mapear aprendizagens, integrar metodologias. DGIDIC/Ministério da Educação e Ciência.
Madalena Cancela, Diretora Pedagógica