"Se passam o dia todo na floresta… como é que aprendem?”
Esta é uma das perguntas que por vezes algumas famílias que visitam a Escola Lá Fora fazem. É uma dúvida natural. Durante muitos anos habituámo-nos a associar a aprendizagem a mesas, manuais, fichas e momentos em que todas as crianças fazem exatamente a mesma tarefa.
"Tudo o que se faz dentro de quatro paredes é possível fazer Lá Fora. Mas nem tudo o que se faz Lá Fora é possível fazer dentro de quatro paredes."
Esta frase resume muito daquilo em que acreditamos. Aprender na floresta não significa abdicar das aprendizagens que acontecem noutros contextos. Significa ampliá-las, enriquecê-las e dar-lhes um contexto real. Escrever, contar, desenhar, investigar, criar ou resolver problemas fazem parte do nosso dia a dia. No entanto, estas aprendizagens surgem ligadas à experiência, às curiosidades, à natureza e às relações, tornando-se mais significativas e duradouras.
Aprender em contexto = Aprender com significado
Imaginem um grupo de crianças que decide construir uma cabana na floresta. À primeira vista, pode parecer apenas uma brincadeira. Mas aquela experiência está repleta de oportunidades de aprendizagem.
Enquanto procuram os materiais mais apropriados, as crianças comparam a resistência dos ramos e levantam hipóteses sobre quais serão os mais seguros para utilizar.
Quando medem e contam paus e troncos, estimam distâncias ou fazem uma estrutura, estão a explorar conceitos matemáticos de forma natural.
Ao discutirem ideias, explicarem o seu raciocínio, negociarem soluções ou contarem o que descobriram, desenvolvem competências de linguagem e de comunicação.
E, talvez mais importante do que tudo isto, aprendem a cooperar, a ouvir diferentes perspetivas, a lidar com a frustração, a tomar decisões em conjunto e a assumir responsabilidades.
Nenhuma destas aprendizagens acontece isoladamente. Tal como na vida, as diferentes áreas do conhecimento cruzam-se constantemente.
Há objetivos pedagógicos?
Na Escola Lá Fora seguimos as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, tal como uma instituição de educação pré-escolar. Procuramos, no entanto, que a aprendizagem aconteça com sentido e significado, integrada nas vivências do dia-a-dia.
Mais significativo do que contar elementos numa ficha, é contar quantos amigos estão em determinado dia no grupo para vermos quantos pinceis precisamos para a proposta.
Mais significativo do que copiar letras, é escrever uma mensagem para deixar aos amigos depois de uma descoberta na floresta.
Quando a aprendizagem responde a uma necessidade e interesse verdadeiro, torna-se mais significativa e duradoura.
O brincar não é uma pausa na aprendizagem
Ainda existe a ideia de que o brincar e a aprendizagem não estão interligados. No entanto, sabemos, porque a investigação assim o diz, que o brincar é uma das formas mais completas de aprendizagem durante a infância.
A criança, enquanto brinca, experimenta, faz perguntas, testa hipóteses, cria estratégias, desenvolve linguagem, aprende a relacionar-se com os outros e constrói conhecimento sobre o mundo, dando-lhe significado.
Numa abordagem de aprendizagem ao ar livre, o ambiente oferece desafios que não podem ser totalmente antecipados por um adulto, como acontece numa sala, por exemplo. Um tronco caído pode tornar-se numa ponte. Uma poça de água transforma-se numa oportunidade para investigar a profundidade ou os reflexos. Um ninho encontrado no chão desperta conversas sobre o ciclo da vida e o respeito pela natureza.
São estas experiências que tornam a aprendizagem viva!
E qual é o papel do educador?
O papel do educador, numa Forest School, exige uma enorme intencionalidade.
É o adulto que prepara o ambiente educativo, observa atentamente cada criança, escuta as suas perguntas, documenta os seus interesses e identifica oportunidades para aprofundar as aprendizagens.
Por vezes, basta uma pergunta ou uma intervenção feita no momento certo para abrir caminho a uma investigação que pode durar dias ou semanas.
Outras vezes, é necessário introduzir novos materiais, lançar um desafio ou simplesmente dar tempo para que as crianças encontrem as suas próprias curiosidades e respostas.
Como abordamos as diferentes áreas de conteúdo
Na Escola Lá Fora não dividimos o dia em "tempo da matemática", "tempo da linguagem" ou "tempo das ciências".
A vida não funciona assim. A aprendizagem também não.
Os projetos que desenvolvemos nascem frequentemente das curiosidades das crianças ou das suas necessidades e permitem integrar diferentes áreas do conhecimento de forma natural.
Um projeto sobre aves pode envolver observação científica, desenho, construção de comedouros, contagem de espécies observadas, leitura e exploração de livros, escrita de registos sobre descobertas, conversas sobre migração, entre tantas outras possibilidades.
É precisamente esta ligação entre a experiência e o conhecimento que torna a aprendizagem na floresta tão rica.
Mais do que preparar para a escola, preparar para a vida
O conhecimento é importante. Mas a autonomia, a criatividade, resiliência, a capacidade de resolver problemas, a comunicação, a empatia e a confiança também o são.
Todas estas competências serão essenciais ao longo de toda a vida e desenvolvem-se quando as crianças têm tempo para brincar, explorar, experimentar, errar, tentar novamente e descobrir por si próprias e umas com as outras.
Os benefícios da metodologia Forest School não se resumem ao contacto com a natureza. Estendem-se ao desenvolvimento do pensamento crítico, da capacidade de cooperação, da resiliência e da curiosidade, qualidades que acompanham cada criança muito para além da infância.
O objetivo não é apenas que as crianças saibam responder corretamente a uma pergunta. É que compreendam o mundo, sintam vontade de continuar a aprender e a descobrir e descubram que são capazes de enfrentar novos desafios com confiança.