O que o aborrecimento ensina às crianças
“Estou aborrecido”
Para muitos adultos, esta frase acende um alerta imediato. Uma vontade quase automática de preencher, sugerir e entreter: Mais uma atividade. Mais um estímulo. Mais uma resposta.
Mas… e se o aborrecimento não fosse um problema? E se fosse, na verdade, um espaço fértil?
O vazio que cria
Numa sociedade onde tudo é rápido, imediato e cheio, o vazio torna-se desconfortável. Mas para a criança (e até para nós, adultos), o aborrecimento é fundamental!
É no aborrecimento que:
Em contextos de aprendizagem ao ar livre, como numa Forest School ou numa escola na natureza, este “aborrecimento” surge com mais naturalidade.
Não há estímulo constante. Não há entretenimento preparado a cada minuto. Há natureza. Há tempo. Há liberdade. E isso pode parecer… aborrecido.
Curiosamente, muitas das brincadeiras mais ricas começam com um: “Não há nada para fazer…”
E depois:
É assim que nasce o brincar na natureza: espontâneo, significativo e inteiro.
A resistência inicial
Quando uma criança diz “não sei o que fazer”, está, muitas vezes, no limiar de algo importante. Mas esse limiar pode ser desconfortável. Especialmente para crianças habituadas a rotinas muito estruturadas, atividades constantemente orientadas ou agendas preenchidas.
O impulso do adulto é ajudar, dando ideias e “resolvendo”. Mas, ao fazê-lo, pode estar a interromper um processo invisível.
O nosso papel enquanto adultos
Sustentar o aborrecimento de uma criança não é ignorar. É estar disponível… sem invadir. É confiar que ela é capaz de encontrar o seu próprio caminho e que, às vezes, só precisa de um empurrãozinho.
O papel do adulto pode ser:
“Mas ele está mesmo sem fazer nada…” Sim. E isso pode ser exatamente o que precisa.
No aborrecimento, a criança:
É um tempo menos visível, mas profundamente rico.
Num pré-escolar mais tradicional, este tempo tende a ser mais reduzido. Mas em contextos como uma escola na natureza, ele é protegido. Porque se reconhece o seu valor no desenvolvimento infantil.
Mas não é preciso estar numa Forest School para permitir isto. Mesmo em casa, na cidade, em apartamentos, com bebés ou crianças pequenas, é possível criar espaço para o potencial do aborrecimento.
Algumas ideias simples:
E, talvez o mais difícil: tolerar o desconforto inicial.
Por fim…
O aborrecimento não é um vazio. É espaço para imaginar, criar, explorar, falhar e tentar de novo.
É nesse intervalo, entre o nada e o algo, que muitas das aprendizagens mais profundas acontecem.
E talvez o maior desafio não seja das crianças. Seja nosso. Em confiar, esperar e não preencher tudo.
Sofia Rocha, Coordenadora Almada