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O que o aborrecimento ensina às crianças
23 Abril 2026

O que o aborrecimento ensina às crianças

O que o aborrecimento ensina às crianças

O que o aborrecimento ensina às crianças

“Estou aborrecido”

Para muitos adultos, esta frase acende um alerta imediato. Uma vontade quase automática de preencher, sugerir e entreter: Mais uma atividade. Mais um estímulo. Mais uma resposta.

Mas… e se o aborrecimento não fosse um problema? E se fosse, na verdade, um espaço fértil?

 

O vazio que cria

Numa sociedade onde tudo é rápido, imediato e cheio, o vazio torna-se desconfortável. Mas para a criança (e até para nós, adultos), o aborrecimento é fundamental!

É no aborrecimento que:

  • surgem ideias inesperadas;
  • nascem brincadeiras próprias;
  • se exploram materiais, o espaço e o corpo; 
  • se constrói a imaginação.

Em contextos de aprendizagem ao ar livre, como numa Forest School ou numa escola na natureza, este “aborrecimento” surge com mais naturalidade.

Não há estímulo constante. Não há entretenimento preparado a cada minuto. Há natureza. Há tempo. Há liberdade. E isso pode parecer… aborrecido.

Curiosamente, muitas das brincadeiras mais ricas começam com um: “Não há nada para fazer…”

E depois:

  • um pau vira uma espada; 
  • folhas tornam-se comida;
  • um arbusto vira uma casa;
  • uma pedra inicia uma coleção; 
  • um grupo inventa uma história. 

É assim que nasce o brincar na natureza: espontâneo, significativo e inteiro.

 

A resistência inicial

Quando uma criança diz “não sei o que fazer”, está, muitas vezes, no limiar de algo importante. Mas esse limiar pode ser desconfortável. Especialmente para crianças habituadas a rotinas muito estruturadas, atividades constantemente orientadas ou agendas preenchidas.

O impulso do adulto é ajudar, dando ideias e “resolvendo”. Mas, ao fazê-lo, pode estar a interromper um processo invisível.

 

O nosso papel enquanto adultos

Sustentar o aborrecimento de uma criança não é ignorar. É estar disponível… sem invadir. É confiar que ela é capaz de encontrar o seu próprio caminho e que, às vezes, só precisa de um empurrãozinho.

O papel do adulto pode ser:

  • estar por perto, mas não dirigir;
  • observar antes de intervir;
  • resistir à urgência de entreter; 
  • confiar no processo. 

“Mas ele está mesmo sem fazer nada…” Sim. E isso pode ser exatamente o que precisa.

No aborrecimento, a criança:

  • organiza pensamentos; 
  • processa experiências; 
  • descobre interesses; 
  • experimenta autonomia.

É um tempo menos visível, mas profundamente rico.

Num pré-escolar mais tradicional, este tempo tende a ser mais reduzido. Mas em contextos como uma escola na natureza, ele é protegido. Porque se reconhece o seu valor no desenvolvimento infantil.

Mas não é preciso estar numa Forest School para permitir isto. Mesmo em casa, na cidade, em apartamentos, com bebés ou crianças pequenas, é possível criar espaço para o potencial do aborrecimento.

Algumas ideias simples:

  • reduzir estímulos constantes (menos ecrãs e menos “ofertas” de atividades);
  • deixar determinados materiais acessíveis, como objetos simples, naturais e não estruturados;
  • aceitar momentos de “não fazer nada”;
  • confiar que algo vai emergir.

E, talvez o mais difícil: tolerar o desconforto inicial.

 

Por fim…

O aborrecimento não é um vazio. É espaço para imaginar, criar, explorar, falhar e tentar de novo.

É nesse intervalo, entre o nada e o algo, que muitas das aprendizagens mais profundas acontecem.

E talvez o maior desafio não seja das crianças. Seja nosso. Em confiar, esperar e não preencher tudo.

 

Sofia Rocha, Coordenadora Almada

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