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Mordidas e conflitos físicos na infância: Um olhar sobre o desenvolvimento infantil e o papel dos adultos nos momentos de conflito
21 Setembro 2026

Mordidas e conflitos físicos na infância: Um olhar sobre o desenvolvimento infantil e o papel dos adultos nos momentos de conflito

Mordidas e conflitos físicos na infância: Um olhar sobre o desenvolvimento infantil e o papel dos adultos nos momentos de conflito

 

Há assuntos que chegam acompanhados de muitas emoções. As mordidas são, sem dúvida, um deles.

 Saber que o nosso filho foi mordido pode trazer preocupação, tristeza ou zanga. Saber que foi o nosso filho a morder também pode ser difícil. E é importante começar por dizer: compreendemos. Quando se trata dos nossos filhos, queremos protegê-los de tudo aquilo que lhes possa causar dor ou desconforto.

 Mas é importante compreender o que acontece na infância, para olharmos para estas situações de outra forma.

 

Morder não é o mesmo que atacar 

Nas crianças pequenas, morder, empurrar, puxar ou bater não são, necessariamente, sinais de uma intenção de magoar. São comportamentos que podem surgir em diferentes momentos do desenvolvimento infantil, sobretudo quando as crianças ainda estão a aprender a comunicar, a regular as suas emoções e a relacionar-se com os outros. 1

 Uma criança pode morder porque está frustrada, porque quer um determinado objeto e não consegue dizê-lo, porque não conseguiu expressar o que sente ou porque uma brincadeira se tornou demasiado intensa. Pode também acontecer num momento de grande excitação.2

 Isto não significa, portanto, que todas as situações tenham a mesma causa. Cada criança e cada contexto precisam de ser compreendidos. Desta forma, não devemos interpretar automaticamente um comportamento físico como uma intenção de magoar.

 Dizer “não quero”, pedir ajuda, esperar pela sua vez ou afastar-se quando algo não está a correr bem são capacidades e ferramentas que uma criança pequena ainda está a construir que, para nós, adultos, parecem simples, mas na infância não o são.3

 

As relações também se aprendem

 Brincar com outras crianças é uma experiência profundamente rica. É através dessas relações que as crianças se desenvolvem socialmente e descobrem que existem outros desejos, outros limites e outras formas de estar.

 Essa aprendizagem não acontece apenas quando tudo corre bem. Acontece, também, quando duas crianças querem o mesmo objeto. Quando uma não quer que a outra se aproxime. Quando uma brincadeira deixa de ser divertida para uma delas. Quando há um desencontro de intenções.

 Os conflitos fazem parte das relações humanas e, na infância, podem constituir oportunidades importantes de aprendizagem social. É através dessas experiências, com o apoio adequado dos adultos, que as crianças vão desenvolvendo competências como a comunicação, a autorregulação, a negociação e a resolução de problemas.3

 Isto não significa que todos os comportamentos sejam aceitáveis ou que os adultos devam deixar acontecer tudo. Significa que precisamos de distinguir entre aquilo que é expectável no desenvolvimento e aquilo que exige uma intervenção mais próxima e intencional.

 

Um dia inteiro é muito mais do que aquele momento

 Enquanto equipa educativa, sentimos que esta é uma perspetiva importante para partilhar com as famílias.

 As crianças passam muitas horas na escola. Brincam, exploram, inventam, riem, zangam-se, fazem descobertas, procuram os adultos, interagem com os amigos e voltam a brincar. Um dia de uma criança é feito de muitas e variadas experiências.

 Quando acontece uma mordida, um empurrão ou outro conflito físico, esse momento merece atenção. Mas não é, por si só, um retrato da criança, da relação entre as crianças ou da qualidade do dia que viveram.

 Uma criança ser mordida não significa que tenha passado o dia triste. Uma criança morder não significa que tenha passado o dia a fazê-lo. E uma situação destas não significa, automaticamente, que houve negligência por parte dos adultos.

 Na nossa Forest School, onde valorizamos a liberdade para brincar, explorar a natureza e viver experiências ao ar livre, as crianças têm espaço para se relacionar, experimentar e construir relações.

 Isso não significa ausência de limites. Significa que não procuramos eliminar todas as possibilidades de conflito. Porque as relações não são sempre positivas. E aprender a relacionar-se também passa por viver momentos de desacordo, frustração e desencontro.

 

O que podemos e devemos controlar

Não conseguimos controlar todas as interações entre crianças. E não acreditamos que seja desejável fazê-lo. O que podemos e devemos controlar é a forma como, enquanto adultos responsáveis, agimos perante essas situações.

Quando acontece um conflito físico, a nossa prioridade é garantir a segurança e o bem-estar das crianças envolvidas. Acolher a criança que foi mordida e acolher a criança que mordeu. Procuramos compreender o que aconteceu, ajudamos a interromper a situação quando necessário e damos espaço para que cada uma possa recuperar. Não se trata de escolher um lado nem de resolver o conflito pelas crianças. Trata-se de garantir segurança, ajudar cada criança a expressar o que aconteceu e criar condições para que, progressivamente, possam participar na construção de uma solução.4

A criança que foi mordida precisa, claro, de ser protegida, tranquilizada e de ter apoio naquele momento. A criança que mordeu também precisa de um adulto que a ajude a compreender o que aconteceu, a reconhecer o impacto da sua ação e a, progressivamente, encontrar outras formas de agir.

Acolher não é desvalorizar a situação e compreender não é deixar de intervir.

 

Quando uma situação merece uma atenção diferente

Reconhecer que os conflitos físicos fazem parte do desenvolvimento não significa ignorá-los.

Sempre que uma situação sai do padrão expectável, é alvo da nossa intervenção enquanto equipa.

Observamos a frequência, o contexto, a intensidade e o impacto que tem nas crianças. Procuramos perceber se existe alguma necessidade que não está a ser respondida, se há algo no ambiente que precisa de ser ajustado ou se a criança está a precisar de um apoio mais próximo e diferente.5 

É observar. É conversar. É ajustar. É procurar estratégias. É trabalhar em conjunto com as famílias.

 

A mensagem que queremos passar às famílias

 Queremos dizer que compreendemos que custa.

 Mas queremos, também, que possam olhar para estes momentos com alguma tranquilidade: uma mordida não define uma criança; um conflito não define uma relação; um momento difícil não define um dia inteiro.

 As crianças estão a aprender a viver com os outros. E nós, enquanto adultos, estamos aqui para as acompanhar nesse processo. Não para garantir que nunca haverá conflitos. Mas para garantir que, quando eles acontecem, as crianças não ficam sozinhas a lidar com eles.

 

Sofia Rocha

Coordenadora Escola Lá Fora Almada

 

Referências

1. National Association for the Education of Young Children (NAEYC). (2023). Understanding and Responding to Children Who Bite.Teaching Young Children, 17 (1)


2. Blair, C., & Raver, C. C. (2015). School readiness and self-regulation: A developmental psychobiological approach. Annual Review of Psychology, 66, 711–731

 

3. Center on the Developing Child at Harvard University. (2014). Enhancing and practicing executive function skills with children from infancy to adolescence.https://developingchild.harvard.edu/resources/handouts-tools/activities-guide-enhancing-and-practicing-executive-function-skills

 

4.  Blunk, E. M., Russell, E. M., & Armga, C. J. (2021). Pros and (con)flict: Using head-mounted cameras to identify teachers’ roles in intervening in conflict among preschool children. Early Childhood Research Quarterly, 55, 230–241

 

5. World Health Organization (WHO) (2020). Improving Early Childhood Development: WHO Guideline. World Health Organization

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